O Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC) solicitou o arquivamento das investigações relacionadas à morte do cão Orelha, afirmando que o animal não sofreu agressões e apresentava uma condição de saúde grave. Esse pedido, assinado por três Promotorias, foi protocolado na Justiça na última sexta-feira, dia 8, após a análise de aproximadamente 2 mil documentos.
A morte de Orelha, ocorrida em janeiro na Praia Brava, em Florianópolis, gerou grande comoção. Inicialmente, a polícia indicou que quatro adolescentes teriam agredido Orelha e um outro cão comunitário chamado Caramelo. No entanto, conforme as investigações avançaram, a responsabilização pelas agressões foi reduzida a apenas um adolescente em relação a Orelha, enquanto outro grupo foi acusado de tentar afogar Caramelo, que conseguiu sobreviver.
Em fevereiro, a Polícia Civil solicitou a internação do jovem apontado como responsável pela agressão e indiciou três adultos pelo crime de coação de testemunhas. Os nomes dos envolvidos não foram divulgados ao público.
Ao analisar o caso, a 10ª Promotoria de Justiça da Infância e Juventude e a 2ª Promotoria de Justiça Criminal solicitaram esclarecimentos adicionais e chegaram a pedir a exumação do corpo do cão para realizar perícia.
Após uma nova avaliação realizada pelo MP-SC, que incluiu relatórios técnicos e imagens de câmeras de segurança, constatou-se que Orelha e o jovem acusado não estiveram no mesmo local ao mesmo tempo. Isso contradiz um relatório policial que afirmava que ambos permaneceram juntos na praia por cerca de 40 minutos. A comparação das imagens do condomínio onde reside o adolescente com os registros do sistema público de segurança de Florianópolis revelou uma diferença de cerca de 30 minutos nos horários registrados, evidenciada pelas condições de iluminação.
Os promotores ainda notaram que no momento em que o adolescente aparece nas gravações, Orelha estava situado a aproximadamente 600 metros dele. Outras imagens mostraram o cão circulando pela rua cerca de uma hora após a suposta agressão com “plena capacidade motora e padrão normal de movimento”, o que segundo o MP-SC enfraquece a teoria sobre agressões recentes que poderiam ter causado seu estado debilitado.
O laudo pericial realizado após a exumação não identificou fraturas ou lesões compatíveis com ação humana. Foi diagnosticada osteomielite na região maxilar esquerda — uma infecção óssea crônica — além de lesão profunda e antiga, perda de pelos e inflamação. A localização da ferida abaixo do olho esquerdo foi considerada compatível com o edema observado pelo veterinário que atendeu Orelha. As evidências também mostraram ausência de cortes ou rasgos, registrando apenas um inchaço significativo na parte esquerda da cabeça e ocular.
Imagem: Ap
Caso Caramelo
No tocante à investigação sobre Caramelo, o MP-SC informou que as apurações afastaram qualquer indício de maus-tratos por parte dos adolescentes. A polícia concluiu que os jovens estavam brincando com o cão na praia sem qualquer intenção de afogá-lo. As imagens obtidas também descartaram a suspeita de que Caramelo teria sido arremessado para dentro de um condomínio; os registros mostram apenas que os adolescentes conduziram o animal até lá.
Inquérito sobre coação e investigação do ex-delegado
A Justiça decidiu arquivar o inquérito referente à suposta coação durante as investigações após a 2ª Promotoria concluir que os eventos registrados em janeiro de 2026 diziam respeito apenas a desavenças entre adolescentes e um porteiro do condomínio, sem conexão com o caso da morte do cão Orelha. De acordo com o MP-SC, não houve qualquer ameaça ou violência visando interferir nas investigações; esses episódios ocorreram antes da abertura do inquérito sobre Orelha.
No mês seguinte, março, o MP-SC instaurou um inquérito civil para investigar possíveis abusos cometidos pelo ex-delegado-geral do Estado, Ulisses Gabriel. Ele é acusado de abuso de autoridade e violação do sigilo funcional ou atos relacionados à improbidade administrativa. Gabriel deixou seu posto para se lançar como pré-candidato à Assembleia Legislativa e negou todas as acusações na época.
Pela análise das provas reexaminadas, as promotorias concluíram que a possibilidade da morte ter ocorrido em decorrência de uma condição clínica séria é mais plausível do que a hipótese envolvendo agressões. Por essa razão, solicitaram o arquivamento do caso.
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